sábado, 19 de junho de 2010

Tagarelice incômoda

Comigo aconteceu duas vezes: horário de almoço, suspensão da sessão da Assembleia Legislativa, dirijo-me à Biblioteca Pública do Acre para ocupar a mente com boa leitura. Entro, pego um café na máquina, escolho o livro e procuro uma poltrona confortável, entre as estantes, longe dos demais. Tenho 40 minutos até a hora de levar o pequeno João Gabriel à escola. E como um interruptor de luz, o livro me desliga do mundo e me liberta das preocupações comezinhas.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem


Mas eis que o cantar dos galos na madrugada de João Cabral de Melo Neto é interrompido pela conversa de duas funcionárias da Biblioteca. Elas também se refugiaram entre as estantes, talvez para escapar à vigilância dos chefes. A conversa, sobre a misteriosa enfermidade de uma delas, me traz de volta à superfície. Suspendo a leitura, aborrecido, enquanto a lengalenga sobre exames, clínicas, remédios e mal estar, ainda que aos murmúrios, me enche os ouvidos.

Como disse no início, é a segunda vez que o palrar desmedido e inoportuno de funcionárias da Biblioteca Pública me impede de ler neste ambiente em que não deveria haver exceção à regra do mutismo absoluto.

Lembro-me então de Michel de Montaigne: “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”.

E não pode haver nada pior que uma biblioteca abarrotada de livros silenciosos e funcionários que falam pelos cotovelos.

4 comentários:

  1. É a educação do povo no melhor lugar do mundo para se viver. Imagino se fosse o pior.

    ResponderExcluir
  2. A biblioteca pública é um desbunde, mas realmente incomoda muito o falatório generalizado, tanto de funcionários quanto de usuários.

    ResponderExcluir
  3. Nielsen Macambira21 de junho de 2010 14:59

    Não se dê por vencido, Archibaldo use os interruptores anônims e suas trivialidades para compor personagens tragicômicos no futuro. Eu mesmo observo os tipos humanos só para depois dissecá-los em suas necessidades frívolas... Tem coisa pior que ouvir mulheres conversarem entre si (liquidação, o preço de uma boa manicure, o novo visual de não sei quem...), outro que diz que não precisa de um carro novo , mas ainda assim vai comprar... Ah, vaidade das vaidades isso mata os que tem alma intelectual...Como disse temos de dissecá-los tal como um biólogo faz com anfíbios asquerosos... E enfim, extrair deles só o melhor! Adorei a observação da conversa secundária no ambiente bibliotecário. A propósito, quando teremos um novo livro seu?

    ResponderExcluir
  4. A biblioteca pública tem mais funcionários do que livros e gente por lá. É simplemente impossível pesquisar e concentrar-se com tanto barulho que produzem.

    Agora se um de nós, atender uma chamada de celular, é uma correria deles pra cima da gente que só vendo...

    Tão Acre, como dizia o saudoso jornalista José Leite. Tem gente saindo pelo ladrão alí...

    ResponderExcluir