terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha partilha

Do fundo da gaveta, mas terrivelmente atual:

Uma das mais belas crônicas da literatura brasileira foi escrita, claro, pelo capixaba Rubem Braga. “A Partilha” fala de dois irmãos que se separam depois de um desentendimento. O narrador da história é o mais velho, que vai dizendo quais pertences pretende levar de casa.

Ele explica que quer ficar com a rede, pois o outro irmão nem gostava muito de rede, “quem sempre deitava nela era eu”. O retrato da irmã pode ficar com o mais novo, mas o retrato da mãe o mais velho quer levar, porque “você tinha aquele dela de chapéu, e você perdeu”. Linhas e chumbadas, o puçá e a tarrafa, o fogão e as cadeiras, a estante e as prateleiras, os dois vasos de enfeite, o quadro e a gaiola, o alçapão, “tudo é seu”.

Mas o canivete o mais velho faz questão de levar, porque quer guardá-lo como recordação. “Quem me perguntar por que eu gosto tanto desse canivete eu vou dizer: é porque é lembrança do meu irmão”.

Reli a crônica pela enésima vez e quis fazer a minha versão, que saiu mais ou menos assim:

Você pode ficar com a cama de casal, com os móveis da sala e da cozinha, com a televisão. O computador foi você quem comprou, é todo seu. Mas alguns livros eu levo: o Caetés, o Dom Casmurro, o do Tchecov e esse aqui sobre o Japão.

A estante é sua, as cortinas são suas, o ferro de passar é seu. Mas o Aurélio vai comigo porque foi do meu irmão. Até escrevi uma crônica sobre esse dicionário, e lembro que você a leu e disse “suas crônicas estão cada vez melhores, meu amor”.

O ventilador, o criado-mudo, os dois cachorros são seus. A verdade é que você nunca cuidou deles, nunca lhes deu banho ou remédio, mas você vai precisar mais deles do que eu. Agora a enciclopédia é minha, cada volume vai comigo, da Barsa eu não abro mão.

Não faço questão da máquina de lavar, das poltronas, do aparelho de som ou do fogão. Queria levar o vídeocassete porque gosto muito de ver filme, mas foi sua mãe quem lhe deu. Vou levar, porém, uma das redes, porque apesar de não gostar de rede, é melhor do que dormir no chão.

Fique com os discos, com os quadros e com as fotografias. O telefone também fica nesta casa, pois nunca me pertenceu. A escrivaninha é sua, o guarda-roupa também é seu. Vou levar o alicate e o martelo, a pedra de amolar e o facão. No peito não vai mágoa, só este coração que lhe dei muito novinho, mas que agora envelheceu.

E se me perguntarem: “Há vantagens em estar partindo, irmão?”, vou mentir que sim, há muitas vantagens, e então lembrarei o dia em que cansei de apertar parafuso ao pé do Monte Fuji e voltei pra te conhecer e descobrir que a dor maior não está em repartir os cacos da vida – mas em ouvir o ruído dos ferros se fechando aqui neste portão.

8 comentários:

  1. RODRIGO FERNANDES13 de abril de 2011 00:19

    Como diria o nosso NINJA : "Dedos mágicos" !! Abraço meu amigo .

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  2. "... e descobrir que a dor maior não está em repartir os cacos da vida – mas em ouvir o ruído dos ferros se fechando aqui neste portão."

    Doloroso.

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  3. Caramba! Deixo aqui a solidariedade de quem passou por isso em Janeiro e hoje tem noções muito claras, cínicas e cruéis sobre 'casamento', todas são clichês, mas quem se importa se é verdade mesmo: 1) tire a letra 's' e acrescente um 'g', 2) é como onibus, quem tá fora quer entrar quem tá dentro quer... SAIR! 3) tem o mesmo propósito do submarino - feito pra boiar mas acaba sempre afundando...

    Simples assim! Ou você ri sobre ou pira! A pior parte é sempre ver os pequeninos confusos, tristes e inquietos, isso é o mais doloroso que acabar com uma coisa que já tá com prazo de validade vencido. Crianças pequenas tem perguntas que desarmam e fazem até o cara mais durão chorar - por que isso? por que aquilo? por que vc e mamãe não mais...? Perguntas que nem a gente sabe explicar e eles lá perguntando em toda sua inocência... Sério, é de lascar, se o cara não tiver cabeça boa vai pro tarja preta...

    Você fez desse limão uma ótima limonada, mais um belo texto, tá inspiradíssimo ultimamente.

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  4. Com "três batidas de portão", no currículo, acho que tenho experiência pra dizer que seu texto é primoroso e sensível. Você é jovem amigo Archibaldo, tem muito tempo de escrever coisas lindas. Profetizo aqui que, em algum lugar do futuro, você estará na Academia Acreana de Letras. Um abraço!

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  5. Bicho, que coisa linda!
    Estava em Floripa e encontrei a nossa querida Vassia e lembrei desse texto do carai que vc escreveu e publicou num jornal daí (como eram bons os jornais naquele tempo de delicadezas)
    Sou fã desse texto e do autor...claro!!
    Um beijo n'alma!

    Sergio Souto

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  6. E saber que fui eu que apresentei a Vássia pro Archibaldo, logo que ele retornou do Japão. É por isso que eu entôo esse refrão paradoxal: o casamento é bom, justamente porque não é pra sempre...

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  7. Archibaldo, perdoe a reincidência neste post, mas o reli hoje e lembrei de uma música do Chico Buarque e Francis Hime, chamada "Trocando em miúdos". Segue:

    "Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
    Não me valeu
    Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
    O resto é seu
    Trocando em miúdos, pode guardar
    As sobras de tudo que chamam lar
    As sombras de tudo que fomos nós
    As marcas de amor nos nossos lençóis
    As nossas melhores lembranças
    Aquela esperança de tudo se ajeitar
    Pode esquecer
    Aquela aliança, você pode empenhar
    Ou derreter
    Mas devo dizer que não vou lhe dar
    O enorme prazer de me ver chorar
    Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
    Meu peito tão dilacerado
    Aliás
    Aceite uma ajuda do seu futuro amor
    Pro aluguel
    Devolva o Neruda que você me tomou
    E nunca leu
    Eu bato o portão sem fazer alarde
    Eu levo a carteira de identidade
    Uma saideira, muita saudade
    E a leve impressão de que já vou tarde"

    Abraço.

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