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Miguel Angel Suárez Ortiz Notícia divulgada nos jornais da Capital dá conta da aprovação pela Câmara Municipal de Rio Branco de um projeto de lei apresentado por um vereador para autorizar o município a celebrar convênios com Universidades da Bolívia através dos quais os alunos dessas universidades seriam admitidos para realizar o internato rotatório nas unidades de saúde da Capital. Alega-se como justificativa que isso facilitaria a vida das famílias que mandaram seus filhos para estudar Medicina na Bolívia evitando-lhes despesas com a permanência desnecessária naquele país durante o internato e que, ademais, resolveria o problema da falta de médicos nas unidades de saúde do município.
O oportunismo político, a insensatez e a desinformação deveriam ter limites entre políticos e principalmente entre aqueles com mandato, assistidos por um elenco de “assessores”, em tese, aptos para evitar atos falhos e dar substrato aos projetos apresentados. Não é o que acontece neste caso, onde há clara manipulação de fatos em busca de votos, porquanto é segredo gritado por todos os cantos que o vereador autor do projeto é candidato a deputado estadual.
Restringindo-nos ao tema, digamos, primeiro que o INTERNATO ROTATÓRIO é parte integrante e não destacável, do curso de graduação em Medicina. Trocando em miúdos, um curso de graduação em Medicina é constituído por três ciclos: o básico, o clínico ou profissional e o de aplicação ou internato. O básico e o clínico acontecem em sala de aula e em laboratórios específicos para a formação teórica do futuro médico. Já no INTERNATO o aluno deve receber treinamento prático e intensivo, sob a forma de estágios em instituições prestadoras de serviço médico, de modo a assumir progressivamente e sob supervisão permanente de seus professores, a responsabilidade pela saúde e tratamento dos pacientes ali atendidos.
O internato é denominado Rotatório, porque o aluno deve passar obrigatoriamente pelas quatro grandes áreas da medicina: Clínica Médica, Pediatria, Gineco-Obstetrícia e Clínica Cirúrgica e aqui no Brasil, pela última incorporada depois da implantação do SUS, Medicina da Família e Comunitária.
Os ALUNOS durante o INTERNATO cumprem estágios em unidades de saúde específicas, sempre sob orientação de professores porque, repitamos, o objetivo é formar médicos indiferenciados, mas capacitados para atender à população em nível básico pelo menos. Para completar, recordemos que no internato rotatório o treinamento em serviço é complementado com aulas acadêmicas.
Pois o projeto do vereador desconsidera esses fatos e tenta vender a idéia de que o interno já é um médico e que como tal pode atender à população o que, convenhamos, é uma soberana estultice.
Com o tipo de atendimento que é dispensado aos nossos pacientes na rede pública do município de Rio Branco, onde atá médicos estão sendo substituídos por enfermeiras que se fazem chamar de doutoras para passar como tais e que, por outro lado, sequer conta com laboratórios para os exames clínicos de rotina, esses coitados alunos de Medicina poderiam aprender o quê?
Será que é esse o tipo de formação que as famílias acreanas querem para seus filhos estudantes de Medicina na Bolívia?
Olhando em outra direção, sem orientação de docentes universitários, sozinho, qual o tipo de assistência que um aluno de Medicina poderia oferecer à população? Será que o vereador teria coragem de buscar esse atendimento para ele, ou entregar algum filho para ser tratado por esses alunos?
Quanta falta de honestidade, minha gente! Estão querendo fazer política com algo extremamente sério pensando que isso não vai custar nada para a população. Pior, estão querendo transferir um custo que é das universidades bolivianas para nós que nada temos a ver com as bandalheiras que por lá são cometidas uma vez que é condição básica para a implantação de um curso de Medicina o contar com hospitais-escola. Se a universidade em que esses meninos estudam não tem hospital-escola, tirem eles de lá porque essa não é uma escola de Medicina, é um caça-níqueis.
Para a população o custo também deve ser individualizado e deve repercutir no paciente, passível de atendimentos desqualificados ou no coitado do aluno que, despreparado, vai ter de responder por qualquer mínimo erro, e sem chance de desculpa uma vez que nessa hora o político desaparece do mapa.
Vivemos momentos críticos nos quais a politicalha grassa, especialmente, na área médica, com candidatos querendo tirar proveito da miséria alheia sem a menor preocupação com a qualidade do atendimento. E pensar que esse povo se diz orientado por Deus. Vade retro!
*Miguel Angel Suárez Ortiz é advogado